domingo, 26 de junho de 2011

Crônica da semana

Tivemos uma prova de redação em que tínhamos que fazer uma crônica com o tema vestibular. Coloquei a de uma amiga. 

LINHA DO EQUADOR
     “Outro dia estava fazendo uma prova de redação em minha escola e me deparei com uma crônica de um tal de Rubem Alves. Dizia que nos ensinavam inutilidades que depois esqueceríamos. Eu, estudante do ensino médio, não via daquele jeito. Precisava de todas aquelas inutilidades para decidir qual inutilidade eu gostaria de seguir para torná-la útil à minha vida, se é que isso faz algum sentido. Além disso, como esqueceríamos tudo depois? Três anos de estudos, achei improvável.
     Chegou o dia da tão comentada prova, terror dos estudantes. Estava tranquila, afinal, passei três anos estudando. Me entregaram a prova. De repentes, a realidade me atingiu. Estava diante das folhas que mudariam minha vida. Cada bolinha preenchida significaria um passo à frente ou um grande retrocesso. Entrei em pânico. Átomos agora realizavam mitose e o Rio Nilo era o maior do mundo. Robespierre virou um mártir da luta pela libertação das Américas e Castro Alves escrevera a Canção do Exílio. Fórmulas? Que fórmulas? Advérbios? Oração subordinada substantiva...objetiva direta? Branco total.
     Percebi que não era o sistema de ensino que estava errado, apenas a maneira de concretizá-lo na entrada das universidades. O vestibular valoriza indivíduos frios e calculistas, que não se rendem ao nervosismo de situações que mudarão suas vidas. E àqueles que se dedicam aos estudos das inutilidades e entendem o peso dessas folhas de papel, resta seguir esse modelo.
     Quanto ao esquecimento humano, acabei por comprová-lo outro dia. Estava sentada à mesa com meus pais. Meu pai comentou que iria fazer uma viagem a Macapá, capital do Amapá. Estava animado com a possibilidade de cruzar a Linha do Equador a pé. Minha mãe, arquiteta, incrivelmente inteligente em sua área, doutora em sustentabilidade pela UnB, diante de tal entusiasmo, respondeu-lhe:
     – Mas a linha do Equador...não estaria no Equador?
     É, acho que o tal Rubem Alves estava certo, afinal.”
Uma amiga





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