segunda-feira, 23 de julho de 2012

Sobre...


Belo belo minha bela 
Tenho tudo que não quero
 
Não tenho nada que quero
 
Não quero óculos nem tosse
 
Nem obrigação de voto
 
Quero quero
 
Quero a solidão dos píncaros
 
A água da fonte escondida
 
A rosa que floresceu
 
Sobre a escarpa inacessível
 
A luz da primeira estrela
 
Piscando no lusco-fusco
 
Quero quero
 
Quero dar a volta ao mundo
 
Só num navio de vela
 
Quero rever Pernambuco
 
Quero ver Bagdá e Cusco
 
Quero quero
 
Quero o moreno de Estela
 
Quero a brancura de Elisa
 
Quero a saliva de Bela
 
Quero as sardas de Adalgisa
 
Quero quero tanta coisa
 
Belo belo
 
Mas basta de lero-lero
 
Vida noves fora zero
.



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sexta-feira, 6 de julho de 2012

Sobre insônia


Insônia. Insônia. Vira para o outro lado. Insônia, insônia, insônia.
     Estava com a cabeça cheia, vinham pensamentos interessantes. E não eram pensamentos simples, daqueles que atravessam e são rapidamente esquecidos, dando lugar a outros tão simples e sem objetivo quanto o anterior. Eram pensamentos complexos, estruturados, pensamentos-textos. Não havia como dormir. Não mesmo.
     Na verdade, ela até havia dormido, tinha conseguido dormir algumas horas. E aí acordou. Acordou naquela inquietação típica de quando se acorda por nada e sem sono no meio da noite. Foi ao banheiro. Voltou. Resolveu escrever os pensamentos-textos. Pegou um caderno que ela já sabia mesmo no escuro onde estava. Agora precisava de um lápis.
Então foi procurar um. Não conseguia achar e a irmã reclamou do barulho. Resolveu tentar dormir novamente, sem sucesso. Subiu ao andar de cima – era uma casa estreita de três andares – para procurar o tal lápis. Não achou. Voltou – barulho. Novamente, a irmã reclama. Ela então deita e resolve ficar quieta.
Até que ela ouve um barulho, aparentemente passos. Desejou que fosse ela, aquela pessoa que nunca a negava conversas longas, agradáveis e por vezes filosóficas, independente da hora. Mas era bem possível que fosse outra pessoa – a casa estava cheia.
Ouviu o barulho novamente. Eram definitivamente passos. Resolveu subir e ver quem era, se fosse outra pessoa que não ela, diria apenas que estava com insônia e havia resolvido ir beber água. Ao subir, viu uma silhueta – provavelmente de um homem. Apertou os olhos para tentar distinguir, através da meia escuridão e da miopia, quem era. Era ela. Foi tomada por uma alegria. A pessoa se vira e sorri. Eram 4h da manhã, como havia visto no microondas.
A pessoa pergunta por que ela estava ali quando deveria estar dormindo.
“ – Insônia.  E você?”
“ – Meu calcanhar dói”  seu pai responde.
     Resolvem ir dormir no mesmo quarto. Descem e mandam a irmã, para o alívio desta, ir dormir no quarto disponível no andar de cima, em que o pai antes estava.
     Deitam-se. Após um tempo conversando, decidem que vão tentar dormir.
     Alguns minutos depois:
“ – Conseguiu dormir?” Ela pergunta.
” – Sim” o pai responde.
“ – Sério?”
“ – Eu não estou conversando com você?” ele diz sarcasticamente em resposta.
“ – Ahn...”
     A insônia é melhor compartilhada.


terça-feira, 8 de maio de 2012

Sobre religião

Às vezes cansa ver tantos ataques ao cristianismo, e em especial à Igreja católica. Entendo que discordem e que não acreditem, mas não entendo porque atacam aqueles que crêem. E, para mim o pior, não sei por que tentam fazer aqueles que crêem deixarem de crer.
Não se pode deixar acreditar e crer em paz? Não buscamos o mal, muito pelo contrário, as religiões cristãs visam o bem, o amor ao próximo. A quem estamos atrapalhando para sermos vítimas de tantos ataques?
Podem existir padres pedófilos, podem haver cristãos que não são boas pessoas e, é verdade, existem muitos. Eu, por exemplo, sou cristã e ainda assim falho muito,sou grossa, falto com respeito, me estresso, sou impaciente e tenho todo um rol de defeitos, mas esses defeitos meus, esses meus defeitos humanos, não invalidam a minha religião.
Também não estou dizendo que não existam ateus que são boas pessoas. Existem. A religião não é um pré-requisito para que uma pessoa seja considerada boa ou má. A religião é só um modo de vida, um modo de ver o mundo, uma série de valores compartilhado por muitas pessoas ao redor do globo, em suma, uma fé comum a vários. 
Sei muito bem que a religião foi, e ainda é, usada como preceito para atos errados de um ponto de vista ético e até religioso. Sei dos atos da igreja católica no período da Idade Média. Estou lendo um livro chamado “Os cavaleiros de preto e branco”, do escritor Jack Whyte. O livro trata dos templários e das cruzadas, é uma ficção norteada por elementos históricos. E há um trecho, uma fala na verdade, interessante no livro, cheguei a sublinhá-lo: “– Não há nada de divino aqui, e eu sei que vocês todos sabem disso. A casta de padres com quem nós temos de lidar não liga a mínima para as coisas de Deus, exceto quando lhes apraz empunhar o nome Dele como uma arma em seu próprio interesse. São todos desse mundo... e famintos pelo poder e pelos prazeres que ele contém. Eles compram seus ofícios, vivem em fornicação e devem cheirar mal às narinas de Deus.”
Nesse único trecho, há muitas ideias interessantes. Uma delas: “ – Não há nada de divino aqui, e eu sei que todos vocês sabem disso.” 
     Ora, confundem a Igreja com Deus e Deus com seus seguidores e seus seguidores com a Igreja. A Igreja é sujeita a erros, e esses erros nos fazem lembrar que, apesar de tudo, a Igreja é formada por homens. Não é por terem dedicado a vida a servir a Deus que padres, etc. têm menos direito de errar que os outros humanos.
Há também a segunda parte da mesma frase,a parte que diz que “todos sabemos disso”. A Igreja, como já disse, erra. Mas isso não desvaloriza seus cristãos seguidores. O fato de que a Igreja erra não diminui a pureza das intenções dos seguidores dessa religião.
E, outra coisa que tiro dessa frase ainda, a religião não é a Igreja. A religião é Deus, é Jesus Cristo. A Igreja é a constituição a qual seguimos, participamos e pela qual propagamos nossa fé. Mas a religião não consiste nos humanos, mas sim em Deus e seus mandamentos.
Por último, um argumento que já ouvi ser usado contra a Igreja, é o fato de dizerem que há na bíblia referências a escravos, chacinas, e outras coisas do tipo. E pode sim haver, porém devemos ter em mente que a bíblia é um livro histórico, retratando valores e culturas de um certo tempo, que hoje são inaceitáveis a nós, mas, no período, eram normais.
    Bem, acho que por agora era isso... Não há problemas em não aceitar a religião católica, assim como qualquer outra, mas o respeito é essencial. Respeitem mais.



Nota sobre a imagem: 
”O peixe se tornou um símbolo da fé cristã nos primórdios dessa prática, onde os fiéis eram perseguidos e maltratados. Para se identificar, eles usavam uma frase em grego: Iesus Christus Theou Yicus Soter, que em português significa “Jesus Cristo, de Deus o Filho Salvador”. Se pegarmos as letras em negrito das palavras em grego, veremos que elas formam um acrônimo: ICHTHYUS. Adivinhem o significado dessa palavra... Muito bem, significa peixe.
Pois foi exatamente dessa forma que os primeiros cristãos passaram a se identificar. Ao se encontrarem, um deles desenhava um arco na areia. Se o outro desenhasse outro arco ao contrário, formava-se um peixe e estava reconhecido um irmão na fé. Algo muito parecido com alguns cumprimentos entre os religiosos da atualidade, como “Paz de Deus, irmão”, ou coisa parecida. Com o passar do tempo, a figura do peixe associou-se ao cristianismo.
Trecho retirado de: BALLESTERO BORSETTI, Luiz Gustavo. Por que o símbolo do cristianismo é um peixe? Disponivel em: http://www.ensinoreligioso.seed.pr.gov.br/modules/noticias/print.php?storyid=93



terça-feira, 10 de abril de 2012

Sobre minha falta de tempo


"Não sei se a vida é curta ou longa demais para nós. Mas sei que nada do que vivemos tem sentido se não tocarmos o coração das pessoas. Muitas vezes basta ser colo que acolhe, braço que envolve, palavra que conforta, silêncio que respeita, alegria que contagia, lágrima que corre, olhar que sacia, amor que promove.
E isso, não é coisa de outro mundo: é o que dá sentido à vida. É o que faz com que ela não seja nem curta, nem longa demais, mas que seja intensa, verdadeira e pura... enquanto durar."
(Cora Coralina)

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Meu blog por hora não é mais meu. Agora é da Cora Coralina,do Antoine de Saint-Exupéry,do Luís Fernando Veríssimo, do Machado de Assis, da Carla Bruni, do Fernando Pessoa. Ando ocupada demais e acredito que, pelos menos pelo resto desse ano, ele vá viver basicamente de citações e coisas do tipo. Assim que recuperar meu tempo, o blog volta (espero)! 

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Sobre loucuras



“É loucura odiar todas as rosas porque uma te espetou. Entregar todos os teus sonhos porque um deles não realizou-se, perder a fé em todas as orações porque em uma não foi atendida, desistir de todos os esforços porque um deles fracassou. É loucura condenar todas as amizades porque uma te traiu, descrer de todo amor porque um deles foi infiel. É loucura jogar fora todas as chances de ser feliz porque uma tentativa não deu certo. Espero que na tua caminhada não cometa essas loucuras. Lembrando que sempre há uma outra chance, uma outra amizade, um outro amor, uma nova força. Para todo fim um recomeço.”

O Pequeno Príncipe

(Enchendo o espaço até eu publicar algo realmente meu).

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Sobre nada específico (literalmente)

Sei que deveria publicar mais textos meus e tenho até andado com vontade de escrever (e em parte, foi por isso que resolvi tirar o blog da hibernação), só não sei sobre o que.
     A verdade é que tenho vários textos já escritos para publicar aqui, mas aí bate uma preguiça de ler todos, selecionar um e de - principalmente – digitar... Inclusive por serem textos já escritos e eu ando com vontade de escrever e não de reescrever, entendem? (talvez esse m no final do verbo seja presunção).
    Então, frente à minha falta de idéias, alguém teria alguma sugestão? 


O desenho não é meu, não 
(assim com nenhuma das outras imagens já postadas aqui)

(Já aviso: não se ofendase eu não acatar, sou bem chatinha e, admito, preguiçosa)

Crônica do...ano?


União, gente


"Nunca se despreze o poder de uma ideia cuja hora chegou. Minha rebelião contra a salsinha ganha adeptos e, a julgar pela correspondência que recebo, esta era uma causa à espera do primeiro grito. Só não conseguimos ainda nos organizar e partir para a mobilização manifestações de rua, abraços a prédios públicos — porque persiste uma certa indefinição de conceitos. Eu sustento que "salsinha" é nome genérico para tudo que está no prato só para enfeite ou para confundir o paladar, o que incluiria até aqueles galhos de coisa nenhuma espetados no sorvete, o cravo no doce de coco, etc. Outros, com mais rigor, dizem que salsinha é, especificamente, o verdinho picadinho que você não consegue raspar de cima da batata cozida, por exemplo, por mais que tente. Outros, mais abrangentes até do que eu, dizem que salsinha é o nome de tudo que é persistentemente supérfluo em nossas vidas, da retórica à porta-aviões, passando pelo cheiro-verde. Meu conselho é que evitemos a metáfora e a disputa semântica e, unidos pela mesma implicância, passemos à ação. Para começar, sugiro um almoço informal com o presidente da República, em Brasília, para discutir a gravidade da questão, que certamente não merece menos atenção do que as novelas da Globo. Mas, como se esperava, começou areação dos pró-salsinhas. Alegam que a salsinha não é uma inconsequência culinária mas tem importância gastronômica reconhecida, tanto que na cozinha francesa o persillé faz parte do nome do prato — isto é, eles não só usam a salsinha como a anunciam! Não se deve esquecer que os franceses também têm um nome elegante, faisandé, para comida podre. E não podia faltar: um salsófilo renitente, o jornalista Reali Jr., alega que a salsinha é, inclusive, afrodisíaca. Como Reali Jr. é um notório frequentador de restaurantes árabes em Paris e muitos pratos da cozinha árabe, como se sabe, são só salsinha (com salsinha em cima), seu argumento fanatizado pode ser desqualificado como golpe baixo. Agora só falta dizerem que o verde intrometido tem vitamina V."

Luis Fernando Veríssimo





     Ah sim, e aos interessados, sou da facção que sustenta a teoria de que “salsinha” é tudo o que é supérfluo em nossas vidas – como matemática e física
. 
     Morte à batata sauté! 




segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Sobre olhos verdes



“Eles verdes são:
E têm por usança
Na cor esperança
E nas obras não.

Camões, Rimas.
São uns olhos verdes, verdes,
Uns olhos de verde-mar,
Quando o tempo vai bonança;

Uns olhos cor de esperança
Uns olhos por que morri;
Que, ai de mi!
Nem já sei qual fiquei sendo

Depois que os vi!
Como duas esmeraldas,
Iguais na forma e na cor,
Têm luz mais branda e mais forte.

Diz uma - vida, outra - morte;
Uma - loucura, outra - amor.
Mas, ai de mi!
Nem já sei qual fiquei sendo

Depois que os vi!
São verdes da cor do prado,
Exprimem qualquer paixão,
Tão facilmente se inflamam,

Tão meigamente derramam
Fogo e luz do coração;
Mas, ai de mi!
Nem já sei qual fiquei sendo

Depois que os vi!
São uns olhos verdes, verdes,
Que pode também brilhar;
Não são de um verde embaçado,

Mas verdes da cor do padro,
Mas verdes da cor do mar.
Mas, ai de mi!
Nem já sei qual fiquei sendo

Depois que os vi!
Como se lê num espelho
Pude ler nos olhos seus!
Os olhos mostram a alma,

Que as ondas postas em calma
Também refletem os céus;
Mas, ai de mi!
Nem já sei qual fiquei sendo

Depois que os vi!
Dizei vós, ó meus amigos
Se vos perguntam por mi,
Que eu vivo só da lembrança

De uns olhos da cor da esperança,
De uns olhos verdes que vi!
Que, ai de mi!
Nem já sei qual fiquei sendo

Depois que os vi!
Dizei vós: Triste do bardo!
Deixou-se de amor finar!
Viu uns olhos verdes, verdes,

Uns olhos da cor do mar;
Eram verdes sem esp’rança,
Davam amor sem amar!
Dizei-o vós, meus amigos,

Que, ai de mi!
Não pertenço mais à vida
Depois que os vi!"
Olhos verdes, Gonçalves Dias.