Isso pode parecer insensível e rude, mas é sincero. Nunca entendi porque as pessoas ficam tão mal quando os avós morrem. Minhas avós morreram quando eu era pequena. Eram a Zilda e a Elza.
Quando lembro da Zilda lembro dela na cozinha, sempre. Dizem que ela cozinhava muito bem – dom que foi passado aos filhos. Lembrar dela faz-me lembrar de um biscoito que tinha em sua casa. Lembro do pote, da trava e do lugar onde ele ficava. Posso quase lembrar seu sabor – nostalgia.
Quando lembro da Elza, lembro de seus cabelos vermelhos, curtos e crespos. Lembro dela comigo no parquinho da quadra em que morava. Até consigo lembrar dela comigo nos brinquedos, mas a lembrança mais forte é dela me ajudando a procurar sementes na calçada ao lado do parque. Uma semente específica, vermelha e oval, muito bonita, na verdade. Lembro também de sua limonada, tão comentada na família – forte, doce e ótima. Só não lembro que fim aquele tanto de semente levava.
Quando penso nelas, vem uma saudade gostosa e confortável – saudade que, quase sempre, teima em sair pelos olhos. Enquanto escrevo e lembro delas percebo, não sem surpresa, que, mesmo após tanto tempo, ainda as amo. Acho, então, que elas não eram Zilda e Elza, elas são Zilda e Elza.
Talvez agora, após escrever, entenda porque as pessoas sofrem tanto quando perdem os avós.
“Só enquanto eu respirar, vou me lembrar de você”

